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Shigeru Miyamoto, criador de Mario, vai receber a Ordem da Cultura do Japão

Shigeru Miyamoto, o "pai" do Mario, foi anunciado nesta sexta-feira (23) como um dos homenageados deste ano com a Ordem da Cultura, uma das condecorações mais importantes concedidas pelo governo japonês. Aos 73 anos, ele será o primeiro representante da indústria de videogames a receber a honraria, que existe desde 1937 e reconhece pessoas que deram contribuições extraordinárias para a cultura do Japão em áreas como artes, ciências e tecnologia. A entrega é feita pelo próprio imperador em uma cerimônia no Palácio Imperial, em Tóquio, marcada para 3 de novembro, data em que o país comemora o Dia da Cultura.

Não é a primeira vez que Miyamoto abre caminho para os games nesse tipo de reconhecimento. Em 2019, ele já tinha sido o primeiro profissional da área a receber o título de Pessoa de Mérito Cultural do governo japonês. São quase 50 anos de Nintendo, período em que participou da criação de Donkey Kong, Super Mario Bros. e The Legend of Zelda, além de projetos que foram além dos consoles, como o parque Super Nintendo World e as adaptações dos personagens da empresa para o cinema.

Para falar da homenagem, Miyamoto participou de uma coletiva de imprensa no dia 22 de outubro, na sede da Nintendo, em Kyoto. Ele agradeceu o reconhecimento, mas fez questão de lembrar que ninguém faz um jogo sozinho e que vai receber o prêmio como representante de todos que trabalharam ao lado dele ao longo desses anos. Também comentou que, na visão dele, os games passaram a ser vistos como cultura justamente porque viraram parte do dia a dia das pessoas, acompanhando várias gerações de jogadores.

Do Donkey Kong ao Reino Cogumelo

Na coletiva, Miyamoto também voltou no tempo e contou um pouco de como nasceu Super Mario Bros., lançado em 1985 para o Famicom. Ele explicou que costuma começar um jogo pensando nas regras e em como o jogador vai entender o que precisa fazer. Em Pac-Man, por exemplo, basta comer todos os pontinhos do labirinto. Em Tetris, é encaixar as peças para fechar as linhas. Simples e direto.

Com o primeiro Donkey Kong, em 1981, o desafio era outro. Como fazer o jogador entender que o objetivo era só chegar de um ponto a outro da tela? A resposta veio em forma de história. Um gorila sequestra uma moça, e o herói precisa subir pelas vigas e desviar dos barris para salvá-la. Assim surgiram Pauline e o próprio Mario.

Foi nesse período que Miyamoto começou a imaginar um jogo em que a tela andasse junto com o personagem, deixando Mario percorrer cenários bem maiores. A tecnologia ainda não dava conta disso, mas a ideia de um herói correndo e pulando por fases extensas ficou guardada e acabou virando a base de Super Mario Bros.. Com o projeto andando, outras ideias foram aparecendo, como o Supercogumelo que faz Mario crescer e aguentar um golpe antes de voltar ao tamanho pequeno.

Miyamoto queria juntar vários tipos de movimento em um jogo só, com um personagem que corresse em terra firme, nadasse e até voasse. Parte dessa inspiração veio da infância. Nas viagens de trem, ele gostava de imaginar alguém correndo do lado de fora da janela, pulando obstáculos e atravessando paisagens diferentes. Foi transformando esse tipo de brincadeira em mecânica de jogo que o Reino Cogumelo começou a tomar forma.

Por que Mario não precisava lutar contra Bowser?

Outra história boa da coletiva envolve o confronto com Bowser no primeiro jogo. Criar um sistema de luta contra o chefe era uma dor de cabeça para a equipe, e Miyamoto encontrou a saída na própria regra do jogo. Se o objetivo de Super Mario Bros. era sempre seguir para a direita, bastava Mario chegar ao fim do cenário para vencer. Era só pular por cima de Bowser, pegar o machado no fim da ponte e ver o vilão cair na lava.

Segundo Miyamoto, achar essa solução deu uma satisfação enorme, ainda mais porque ele estava preocupado com o jeito de fazer aquela luta funcionar. E, quando a ideia foi colocada em prática, o resultado ficou mais divertido do que ele esperava. Quem jogou sabe que dá para derrotar Bowser na base da bola de fogo (e descobrir que, nos sete primeiros castelos, ele era um impostor), mas o combate direto nunca foi obrigatório. Miyamoto lembrou que, com o passar da série, as equipes foram criando batalhas cada vez mais elaboradas contra o Rei dos Koopas.

Mario fora dos videogames

Miyamoto também falou sobre levar os personagens da Nintendo para outras mídias, principalmente o cinema. Por muitos anos, ele foi contra a ideia de fazer filmes. Os personagens tinham sido criados para servir aos jogos, e definir histórias, personalidades e laços familiares muito fechados poderia amarrar a criatividade dos títulos seguintes.

A opinião mudou quando ele percebeu que Mario e companhia tinham conquistado fãs que nem jogavam videogame. Os personagens passaram a ser conhecidos e queridos por conta própria, o que abriu espaço para filmes, parques temáticos e outras experiências. A partir daí, Miyamoto passou a defender que a própria Nintendo participasse dessas produções de perto, mantendo o controle criativo e levando seus personagens a ainda mais gente.

Mais de 45 anos depois da estreia em Donkey Kong, o bigodudo continua conquistando novos fãs, e agora o homem que o criou vai receber do imperador uma das maiores honras do Japão. Para quem cresceu pisando em KOOPAS, é uma notícia para comemorar junto.

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